Prefeitura determina interdição do prédio da Casa de Cultura Ermelino Matarazzo

Defesa Civil diz que sede da Casa de Cultura Ermelino Matarazzo se encontra inadequada para uso, mas ocupantes falam em ‘revanchismo’ e contestam necessidade de fechamento

G1 – São Paulo

Prédio na Zona Leste foi ocupado por movimento cultural e, agora, será interditado (Foto: Movimento Cultural Ermelino Matarazzo)

A Prefeitura de São Paulo determinou a interdição imediata do prédio onde funciona a ocupação Casa de Cultura Ermelino Matarazzo, na Zona Leste da cidade, por um suposto risco de desabamento. A necessidade de fechar é contestada por quem terá de deixar o imóvel.

A utilização do espaço motivou uma discussão no começo do ano entre o secretário municipal de Cultura, André Sturm, e o agente cultural Gustavo Soares, que atua no local. Durante o encontro, gravado, Sturm ameaçou acabar com as atividades no edifício e “quebrar a cara” do rapaz.

O prédio, que fica na Avenida Milene Elias, já foi sede da subprefeitura de Ermelino Matarazzo, mas acabou desocupado depois que a administração regional mudou de endereço. Abandonado, o espaço foi ocupado em setembro de 2016 pelo Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, que desde então desenvolve uma série de atividades no local, como saraus e oficinais de arte.

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A ocupação era apoiada pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT), que inclusive fechou uma parceria com aporte financeiro na ordem de R$ 16 mil mensais para fomentar os trabalhos do coletivo. O grupo, porém, não encontrou a mesma guarida junto à gestão de João Doria (PSDB), e o repasse de verbas foi interrompido.

Com base em um relatório da Defesa Civil, a Prefeitura deu um prazo de três dias úteis – contados a partir do último dia 8 – para que o prédio da Casa de Cultura seja desocupado, e todos os pertences, retirados. “O imóvel encontra-se inadequado para uso, com sua estabilidade comprometida. Neste sentido, recomenda-se a imediata remoção da marquise e a interdição total do edifício”, sugere o documento.

A análise é questionada pelo Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, que vê um “revanchismo” nas entrelinhas. “A gente entende que essa argumentação está sendo usada, na verdade. Esconde a real intenção da Prefeitura. Desde aquele episódio com o secretário, a gente vem sofrendo uma série de represálias, algumas silenciosas”, afirma Gustavo Soares.

O “episódio” a que se refere o agente é a reunião realizada entre ele e Sturm, em maio. O encontro foi marcado para selar a renovação da parceria entre Prefeitura e coletivo para a gestão da Casa de Cultura, mas a proposta tucana – que não envolvia mais ajuda finaceira, apenas a regularização da utilização do espaço – não agradou e foi recusada.

Sturm não aceitou bem a negativa e a negociação terminou em uma discussão acalorada, com direito a diversas ameaças por parte do secretário. “Se vocês não assinarem, nós vamos tirar vocês de lá” e “Vou quebrar a sua cara” compuseram o repertório. Após a história vazar, ele acabou se desculpando. “Me exaltei”, lamentou no mea culpa.

Casa de Cultura Ermelino Matarazzo costuma receber jovens e adultos do bairro homônimo e da região da Ponte Rasa (Foto: Movimento Cultural Ermelino Matarazzo)

Gustavo argumenta que os próprios técnicos da Defesa Civil garantiram em sessão da Comissão de Educação, Cultura e Esportes, na Câmara Municipal, que não havia necessidade de interditar o prédio para sanar os problemas estruturais que ele apresenta. Agora, até uma demolição é estudada, segundo a Prefeitura. “Os riscos são nos andares superiores, parte que inclusive nós já nem utilizamos”, criticou o agente.

O Movimento Cultural Ermelino Matarazzo também apresenta um laudo independente, feito por um arquiteto morador da região, para contestar o relatório do município. “Ele aponta que existem, sim, problemas na estrutura, mas que é possível resolvê-los sem desocupar o prédio. Não tem risco para as pessoas”, defende Gustavo.

Em ofício entregue aos integrantes do movimento, o prefeito regional Arthur Xavier afirma que está “apressando junto à Secretaria Municipal de Cultura a locação imediata de um imóvel, o qual possa abrigar a Casa de Cultura Ermelino Matarazzo, no intuito de não haver interrupção nas atividades”. Enquanto o novo lar não é encontrado, ele diz que vai “verificar a possibilidade” do coletivo cultural usar o espaço da Biblioteca Rubens Borba Alves de Moraes.

As promessas, no entanto, não convenceram os ocupantes do prédio. “É vago. Não dizem qual seria esse espaço e nem quando ele estará disponível”, reclama Gustavo, que é enfático ao avaliar a sugestão de lar temporário: “Totalmente impossível. A gente faz atividades que de maneira nenhuma comportaria dentro da biblioteca. Questão de estrutura, espaço físico, mesmo. Fora que estamos em contato com o pessoal de lá, e ninguém está sabendo de nada”.

Em nota, a Secretaria das Prefeituras Regionais disse que “o local foi ocupado de forma irregular” e que a vistoria da Defesa Civil “constatou condições precárias de segurança, como rachaduras, infiltrações, instalações elétricas e hidrelétricas em má conservação”. De acordo com a pasta, um laudo técnico definitivo será emitido nos próximos dias. Os ocupantes estão em uma “vigília” e se recusam a sair do prédio.

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